quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Vinte e nove (Legião Urbana)


pela data bissexta.
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos.
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes...

Estou aprendendo a viver sem você,
(Já que você não me quer mais)

Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno,
Decidi começar a viver....



Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.

(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Memória (Carlos Drummond de Andrade)



Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.


Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

sou neto de um joão cabral



                             nordestina rima com clandestina,
                             deve ser pela vida.
                             e também com severina.                                 


            Rivaldo Júnior

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

em tentação



                                                              que seja feita a nossa vontade
                                                                         assim na terra,
                                                              como no inferno.


            Rivaldo Júnior

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

um feliz mente


              quem me disse. disse.
              disseram.

              disseram-me que pra ser normal é preciso ser feliz,
              ou alguma coisa parecida.
              que merda.

              sou feliz mas acho que não sou normal.

 Rivaldo Júnior

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

pelas angústias que fazem a vida como ela é

passo noites, paraíso.
inferno.
foi um tanto complicado, passos, pessoas, noites.
dê-me um conhaque.


origem russa... a vodca, os soviéticos.
danem-se os ultrarromânticos!
tenho o álcool. tenho.
esses meses...
os poucos conhecidos fazem a gentileza
ao relógio.
meia-noites e mulheres, 
meu corpo arde em noites.
as amigas, elas, sim, elas.
meu corpo arde.
as amigas, os prazeres, sim.
arde em noites - meu esperma quente.
noites quentes.
meu conhaque acaba.


minhas noites.
meu pacto com Almodóvar.
gozos deles e delas. elas
elos.
tesouros cônscios, amarelos.
sexo va, sexo viene.
elas.


resta-me álcool na garganta.
despejo o pigarro , já é tarde.
já é hora.
Rivaldo Júnior

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ave de Prata (Zé Ramalho)




É muito mais do que muito,
Muito mais do que quantos anos todos piorei!


É muito mais do que mata,
Muito mais do que morrem todos pela planta do pé!


É muito mais do que fera,
Mais do que bicho, quando quer procriar!


Uma espécie, sementes da água, mistérios da luz...


É muito mais do que antes,
Mais do que vinte anos multiplicar!


Dividir a mentira,
Entre cabelos, olhos e furacões!


Inventar objetos,
Pela esfinge quando era mulher!


Ave de prata, veneno de fogo, vaga-lume do mar...


O mar que se acaba na areia,
Gemidos da terra apoiados no chão.
Entre todos que usam os dentes do arpão!
Apoiados em cada parede pela mão
Pela mão, que criou tantas trevas e luz...


E cada coisa perdida,
Perdidamente pode se apaixonar!


Pela última vida,
Poucos amigos hão de te procurar!


Como é o silêncio?


E nesse momento, tudo deve calar
numa história que venha do povo...
O juízo final .



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

poeta sem sentido sem poema (poema sem sentido sem poeta)



cada vez que vem e vai
vai-se mais de cada vez.

tantas vezes sou espanto, 
outras vezes sou nem tanto.

sou o que não sou
não o que fui
mas o que devo.
faço o que não faço
não vivo, apenas escrevo.

Rivaldo Júnior

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Codinome Beija-Flor (Cazuza)


Pra que mentir,
Fingir que perdoou...
Tentar ficar amigos sem rancor.
A emoção acabou,
Que coincidência é o amor,
A nossa música nunca mais tocou.

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções...
Desperdiçando o meu mel.
Devagarzinho, flor em flor,
Entre os meus inimigos, Beija-flor!

Eu protegi o teu nome por amor,
Em um codinome, Beija-flor,
Não responda nunca, meu amor,
Pra qualquer um na rua, Beija-flor!
Que só eu que podia, dentro da tua orelha fria,
Dizer segredos de liquidificador.

Você sonhava acordada,
Um jeito de não sentir dor.
Prendia o choro e aguava o bom do amor.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O torcedor (Carlos Drummond de Andrade)


No jogo de decisão do campeonato, Eváglio torceu pelo Atlético Mineiro, não porque fosse atleticano ou mineiro, mas porque receava o carnaval nas ruas se o Flamengo vencesse. Visitava um amigo em bairro distante, nenhum dos dois tem carro, e ele previa que a volta seria problema.
O Flamengo triunfou, e Eváglio deixou de ser atleticano para detestar todos os clubes de futebol, que perturbam a vida urbana com suas vitórias. Saindo em busca de táxi inexistente, acabou se metendo num ônibus em que não cabia mais ninguém, e havia duas bandeiras rubro-negras para cada passageiro. E não eram bandeiras pequenas nem torcedores exaustos: estes pareciam terem guardado a capacidade de grito para depois da vitória.
Eváglio sentiu-se dentro do Maracanã, até mesmo dentro da bola chutada por 44 pés. A bola era ele, embora ninguém reparasse naquela esfera humana que ansiava por tornar a ser gente a caminho de casa.
Lembrando-se de que torcera pelo vencido, teve medo, para não dizer terror. Se lessem em seu íntimo o segredo, estava perdido. Mas todos cantavam, sambavam com alegria tão pura que ele próprio começou a sentir um pouco de flamengo dentro de si. Era o canto? Eram braços e pernas falando além da boca? A emanação de entusiasmo o contagiava e transformava. Marcou com a cabeça o acompanhamento da música. Abriu os lábios, simulando cantar. Cantou. Ao dar fé de si, disputava à morena frenética a posse de uma bandeira. Queria enrolar-se no pano para exteriorizar o ser partidário que pulava em suas entranhas. A moça, em vez de ceder o troféu, abraçou-se com Eváglio e beijou-o na boca. Estava batizado, crismado e ungido: uma vez Flamengo, sempre Flamengo.
O pessoal desceu na Gávea, empurrando Eváglio para descer também e continuar a festa, mas Eváglio mora em Ipanema, e já com o pé no estribo se lembrou. Loucura continuar flamengo a noite inteira à base de chope, caipirinha, batucada e o mais. Segurou firme na porta, gritou: "Eu volto, gente! Vou só trocar de roupa" e, não se sabe como, chegou intacto ao lar, já sem compromisso clubista.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ponteio (Edu Lobo)



Era um, era dois, era cem.
Era o mundo chegando e ninguém que soubesse que eu sou violeiro,
Que me desse o amor ou dinheiro...
Era um, era dois, era cem.
Vieram pra me perguntar:
"Ô voce, de onde vai, de onde vem?
Diga logo o que tem pra contar"

Parado no meio do mundo,
Senti chegar meu momento:
Olhei pro mundo e nem via,
Nem sombra, nem sol, nem vento...

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar...

Era um dia, era claro, quase meio.
Era um canto falado, sem ponteio.
Violência, viola, violeiro,
Era morte redor, mundo inteiro...
Era um dia, era claro, quase meio.
Tinha um que jurou me quebrar...
Mas não lembro de dor nem receio: só sabia das ondas do mar.

Jogaram a viola no mundo,
Mas fui lá no fundo buscar!
Se eu tomo a viola: Ponteio!
Meu canto não posso parar, não.

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar, ponteio!

Era um, era dois, era cem.
Era um dia, era claro, quase meio.
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio.
Certo dia que sei por inteiro.
Eu espero não vá demorar, esse dia estou certo que vem.
Digo logo o que vim pra buscar...


Correndo no meio do mundo,
Não deixo a viola de lado.
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar...

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar...

Ponteio!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

parto pós-maturo



no dia em que me disseram
que poema não precisa de forma,
que poema não precisa de rima,
deus sorriu
carlos, gauchismo.

desde então
não mais vi, não já ajo
só viajo.

ainda bem.

Rivaldo Júnior

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Crime Passional (Filipe Catto)


Tem samba no meu quarto a noite inteira,
Especialmente quando tu te vais...
Tem dança quando diz que não me chegas
Que é para distrair o que me faz sofrer aqui demais.

Na madrugada tem perfume e vela
Pra atrair alguém que vem e traz...
Alguma coisa que em ti me falta
Uma atenção singela pra deixar a noite em paz.

Se for pra me ferir com teu silêncio,
Respondo teu vazio com a paixão,
Pra outros corpos que me satisfazem
Já que essa rua te acalanta muito mais que o meu colchão...

Enquanto te convence para os outros,
Enquanto te bajulam pelo bar,
Não vê, nem por milagre, que tua casa
Pega fogo, espalha, luxuriosa, regozija...

Até que um belo dia me culpaste!
Disseste que assim não pode mais.
Eu ri e disse: "vai, pode cantar vitória agora"
Eu fiz mesmo! E faria, é, de novo, se tivesse... 

mas...

Três tiros irromperam a noite surda
Pr´um corpo de calor que se extinguiu
Me deu três beijos úmidos de lágrima
Selou meus olhos como um arrepio

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Galope na beira do mar (Manoel Xudú)















O mar 
se orgulha por ser vigoroso
Forte e gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move se agita
Parece um dragão feroz e raivoso
É verde, azulado, sereno, espumoso
Se espalha na terra, quer subir pra o ar
Se sacode todo querendo voar
Retumba, ribomba, peneira e balança
Não sangra, não seca, não para e nem cansa
São esses os fenômenos da beira do mar.

O próprio coqueiro se sente orgulhoso
Porque nasce e cresce na beira da praia
No tronco a areia da cor de cambraia
Seu caule enrugado, nervudo e fibroso
Se o vento não sopra é silencioso
Nem sequer a fronde se ver balançar
Porém se o vento com força soprar
A fronde estremece perde toda calma
As folhas se agitam, tremem e batem palma
Pedindo silêncio na beira do mar

Não há tempestades e nem furacões
Chuvadas de pedras num bosque esquisito
Quedas coriscos ou aerólito
Tiros de granadas de obuses canhões
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo serra a desabar
Nuvens mareantes, tremores de terra
Estrondo de bombas, rumores de guerra
Que imite a zoada das águas do mar. 


domingo, 8 de janeiro de 2012

Bicho de Sete Cabeças (Geraldo Azevedo)


Não dá pé,

        não tem pé nem cabeça...
Não tem ninguém que mereça,
                        Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo!
                                        Não tem dó no peito
              Não tem nem talvez ter feito o que você me fez
Desapareça!

    Cresça e desapareça!

Não tem dó no peito,
                Não tem jeito,
                       Não tem coração que esqueça!
Não tem ninguém que mereça,
                                         Não tem pé não tem cabeça
             Não dá pé não é direito,
Não foi nada,                        eu não fiz nada disso
                            E você fez um bicho de sete cabeças,

 Bicho de sete cabeças...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

já está tarde pra se falar dessas coisas




sou do tamanho do quadrado elevado ao meu medo.
não caibo em palavras tolas
não me caibo em mais segredos.

faço-me de preces vagas,
tua voz não mais me sente.
sinto que nunca faria as coisas que faço
e faço.

de repente um sorriso falso
te leva e me arranca de mim.
só me resta o nada.
mas nada mais me acalenta agora.

Rivaldo Júnior

sábado, 31 de dezembro de 2011

Desejos (Carlos Drummond de Andrade)













Desejo a você:
                                       Fruto do mato
                                                                                        Cheiro de jardim
              Namoro no portão
                                                         Domingo sem chuva
          Segunda sem mau humor
                                                                                               Sábado com seu amor
                                             Filme do Carlitos
  Chope com amigos
                                                                     Crônica de Rubem Braga
                 Viver sem inimigos
                                                                                                  Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
                                                              E que ela goste de você
                    Música de Tom com letra de Chico
                                                                           Frango caipira em pensão do interior
         Ouvir uma palavra amável
                                                               Ter uma surpresa agradável
               Ver a Banda passar
                                      Noite de lua Cheia
                                                                                        Rever uma velha amizade
     Ter fé em Deus
                                   Não Ter que ouvir a palavra não
                                                                               Nem nunca, nem jamais e adeus.
         Rir como criança
                                               Ouvir canto de passarinho
      Sarar de resfriado
                                                                                    Escrever um poema de Amor
                            Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
                                                          Tomar banho de cachoeira
           Pegar um bronzeado legal
                                                                                      Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
                                           Queijo com goiabada
                     Pôr-do-Sol na roça
                                                                                                   Uma festa
                                                                                 Um violão
                                                            Uma seresta
Recordar um amor antigo
                                                                         Ter um ombro sempre amigo
                                Bater palmas de alegria
                                                                                    Uma tarde amena
       Calçar um velho chinelo
                                                                         Sentar numa velha poltrona
  Tocar violão para alguém
                                            Ouvir a chuva no telhado
                                                                                                    Vinho branco
Bolero de Ravel 

                                                                                                   E muito carinho meu.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Nas voltas do meu coração


Tal como o ator que baseia sua arte na representação fiel do que não é, eu tento fazer-lo com as minhas palavras. Prefiro, e digo isso sinceramente, deixar meu eu-lírico satisfazer-se da possibilidade de se tornar real e fluir entre as minhas letras dando corpo ao meu texto. Porém, por mais que eu relute, há vezes onde minha cara não pode escapar. Este texto, por exemplo, é fruto de uma experiência que não só vivi como trato de pôr-la no papel o mais rápido possível, antes que as lembranças desapareçam da minha memória e eu perca mais uma ânsia de inspiração, como já acontecera antes com outros poemas e crônicas. Tanto assim, este mesmo texto viria ao mundo em forma de poema, quem sabe um soneto, mas a rima e a métrica – que ultimamente venho buscando – me cansam e me aborrecem. Vai assim, como crônica. Talvez nem sequer a termine. Enquanto ao título, e esta oração que acabas de ler, vêm como remendo do texto logo que o finalizei, Chico me sugeriu e eu aceitei. As coisas passam depressa e nós temos de acompanhar. Mas paro segundos comigo para contar-vos o que tenho a dizer.

Aconteceu que na noite de natal, no dia 25 mesmo e não na véspera de festa, resolvemos sair à rua para respirar o que ainda sobrava do espírito natalino. Pôr as crianças no parque, velar o menino Jesus de barro posto no presépio montado na praça e, se coubesse tempo e espaço na matriz, assistir a missa do dia. Não coube, nem uma coisa nem outra. Devido ao nosso desleixo a missa já havia acabado e a multidão se retirava lentamente da igreja. A nuvem de fumaça cheirosa a incenso escapava pelas janelas e os sinos badalavam perenemente. A rua estava cheia. Luzes e papais-noéis enfeitavam as avenidas ainda molhadas de uma chuva de verão que caíra logo cedo. Havia música em algumas casas e dois bêbados celebravam o dia dançando juntos uma versão do Jingle Bell em pagode.  Barracas de confeitos mantinham a tradição entre bolos de mandioca e o cheiro doce do açúcar de confeiteiro. Meu avô, quando vivo e novo, montava em todas as festas sua banca de confeitos. Fosse qualquer festa, do padroeiro ou de emancipação municipal, lá estava ele e seus seis filhos homens negociando alfenins e rapaduras. O gosto enjoativo de uma castanha caramelada adocicou a minha boca, passei logo o pacote pro meu sobrinho. Continuamos, as crianças já reclamam. Vamos aos brinquedos.

Mas antes, não posso deixar de citar que encontrei um amigo no caminho. Confesso aqui que não o quisera encontrar e aqui digo pois sei que ele não me lê. Havia tempos que não o via, contudo não tanto havia vontade de vê-lo. Não obstante fui simpático. Falei das novidades, da vida, das moças e ele pareceu querer ouvir. Despediu-se e apressei para acompanhar os outros.

A multidão se aglomerava próximo aos parques, que nada mais eram que estruturas feitas para enganar os pequenos e tirar-lhes o enfado da aglomeração. Crianças choravam e sorriam em balanços de madeira e rodas-gigantes e arrastavam seus pais bobos e cautelosos para a margem dos brinquedos. Uma gambiarra de lâmpadas amarelas iluminava a rua estreita e lotada.  Meus pequenos, um sobrinho e dois primos, logo cismaram em subir num carrossel. A estrutura, confesso, não era muito confiável. Lataria e madeira formavam um complexo colorido e giratório. Cavalos, elefantes, camelos e algo, que se não me engano assemelhava-se a uma lhama andina, giravam carregando crianças e sorrisos. A ferrugem das grades manchara meus dedos de vermelho. E eu, de modo desajeitado, sujei minha calça tentando livrar-me da mácula rubra. Xinguei e me escorei num poste. Uma coisa porém, me atinou. Mesmo com a preocupação excessiva dos pais e o vai-e-vem de crianças subindo e descendo do brinquedo, os pequenos corriam e subiam na diversão arrastando consigo dúzias de sorrisos. Neste momento, que também posso colocar como a concepção desse texto que agora escrevo, uma metáfora pertinente me veio à cabeça.

Tão íngreme e perigosa é a vida. E tão frágil somos. Carregamos a nossa existência de modo a se adaptar e estar pronto a subir no embalo da caminhada. Giramos. Damos voltas.  Vamos e voltamos. As pessoas nos vêm e vão como os carrosséis. Subimos e descemos. Ora estamos por cima, ora somos forçados a descer e a até mesmo parar e decidir o caminho, do modo das rodas-gigantes. E, por vezes caímos. Nos machucamos. Nos adiantamos demais. Somos forçados a parar. E recomeçar. E toda a estrutura que nos mantêm apoiado, há de nos acompanhar se a construímos de maneira sólida. Embalamos num sonho. E quando menos esperamos, estamos nós sorrindo outra vez, deitados na felicidade proporcionada pela inconstância da vida. Pelas imagens que parecem serem dignas de serem reconquistadas a cada rotação. E adoramos tudo isso por que sabemos, assim como as crianças, que cada recomeço é uma nova oportunidade de observar as coisas e as pessoas por um novo ângulo e mais uma centelha de tempo para que ainda mais possamos ser felizes.

Um movimento em uma manivela que ficava próxima à entrada fez o brinquedo parar. Os meninos desceram para o encontro de seus pais. A noite já se bastava. Mais algum algodão-doce, um pacote de pipoca amanteigada e uma tentativa de acertar o alvo com uma espingarda de chumbinho preencheram o lazer das crianças. Minha noite já estava cheia. Já encontrara o que viera procurar. A noite ainda continuava alta quando eu cheguei em casa. E eu já me alteava quando a noite em mim chegou.
Rivaldo Júnior
                                                      

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Atrás da Porta (Chico Buarque)




Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus...
Juro que não acreditei, eu te estranhei,
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei.
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos,
No teu peito, teu pijama...
Nos teus pés ao pé da cama!
Sem carinho, sem coberta,
No tapete atrás da porta.
Reclamei baixinho.
Dei pra maldizer o nosso lar.
Pra sujar teu nome, te humilhar,
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso,
Pra mostrar que ainda sou tua...





Pra mostrar que ainda sou tua...



sábado, 24 de dezembro de 2011

Poema de Natal (Vinicius de Moraes)


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

desconstrução crítica




pela manhã,
encontrei um jovem poeta que conheço.
ele, então, pôs-se a medir minhas palavras.
leu meus textos
avaliou os,
e os achou ridículos.

juro que lhe acreditava se não fosse poeta.
Rivaldo Júnior

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Incenso fosse música (Paulo Leminski)









       isso de querer
  ser exatamente aquilo  
       que a gente é
  ainda vai

       nos levar além











sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

versinho de amor



a língua paga, o corpo sente
o teu olhar indiferente.
agradeço o teu despeito
com uma faca no teu peito.


Rivaldo Júnior

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gandaia das ondas (Lenine)




É bonito se ver na beira da praia, a gandaia,
das ondas que o barco balança
batendo na areia, 

molhando os cocares dos coqueiros...
Como guerreiros na dança! 

Oh, quem não viu vai ver
A onda do mar crescer.

Olha que brisa é essa
que atravessa a imensidão do mar...

         Rezo, paguei promessa,
         E fui a pé daqui até Dacar.

                 Praia, pedra e areia;
                 Boto e sereia, os olhos de Iemanjá...

                         Água, mágoa do mundo,
                         Por um segundo achei que estava lá!

                                  Olha que luz é essa
                                  Que abre caminho pelo chão do mar.
                                              Lua, onde começa
                                              E onde termina o tempo de sonhar...
                                                         Praia, pedra e areia;
                                                         Boto e sereia, os olhos de Iemanjá...
                                                                    Água, mágoa do mundo,
                                                                    Por um segundo achei que estava lá!

Eu tava na beira da praia,
Ouvindo as pancadas das ondas do mar...
Não vá, oh, morena,
Morena lá, q
ue no mar tem areia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

resposta para qualquer ocasião


e esse grito amarelo que prende minha boca.

me passo
não passo
não posso
não pássaros
não pulsa
me peço
me preço
te prece
te apreço
passado
pesado
possuído
perdido
passivo...

um beijo estala o medo de minha vida,
que os anos não trazem mais.

Rivaldo Júnior


sábado, 10 de dezembro de 2011

Um poema frio


acho que não vale mais a pena mentir.
agora mais não...
não há mais nada a perder
tudo está fraco,
mudado,
velho,
e as únicas promessas que me faziam persistir no silêncio falso
já não são dignas de confiança
e apreço.

vou direto ao ponto.
antes que meu poema se torne prosa
e as metáforas sejam engolidas por minha angústia.
vale meu socorro num sopro de sinceridade.
nunca confiei em você.
nunca acreditei em seu amor.
não, foi tudo uma farsa.
esperava bem menos de você
e ainda assim espero.

não se preocupe,
o que não tem que ser seu, 
nunca será.
te peço desculpas
mas nem isso mesmo acredito
que você mereça.
nem tanto.


Rivaldo Júnior

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A sexa (Luis Fernando Verissimo)


Conversa entre pai e filho:
- Pai...
- Hummmm?
- Como é o feminino de sexo?
- Quê?
- O feminino de sexo.
- Não tem.
- Sexo não tem feminino?
- Não.
- Só há sexo masculino?
- Sim. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas acabas de dizer que há sexo masculino e feminino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra Sexo é masculina.
Depois há o sexo masculino e o sexo feminino.
- Não deveria ser "A sexa"?
- Não.
- Porque não?
- Porque não! 'Sexo' é sempre masculino.
- O sexo da mulher é masculino?
- Sim. Não! O sexo da mulher é feminino.
- E como é o feminino?
- Sexo também. Igual ao do homem.
- O sexo da mulher é igual ao do homem?
- Sim. Quer dizer... Olha. Há sexo masculino e feminino. Não é verdade?
- Sim.
- São duas coisas diferentes.
- Entao, como é o feminino de sexo?
- É igual ao masculino.
- Mas não são diferentes?
- Não. Ou melhor, sim! A palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
- Então não muda o sexo. É sempre masculino.
- A palavra é masculina.
- Não. "A palavra" é feminino. Se fosse masculino seria "O pala.."
- Basta! Vai brincar.
O menino sai e entra a mãe, o pai comenta:
- Temos que vigiar esse menino...
- Porquê?
- Só pensa em... gramática.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eu apenas queria que você soubesse (Gonzaguinha)




Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo...
E que a minha ternura não ficou na estrada,
Não ficou no tempo presa na poeira.

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher,
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto, flor do seu carinho!

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais.
Porque me entendo muito mais também!

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora,
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé.


Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda...
E não teme o corte de novas feridas,
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Hoje à tarde me deu vontade de escrever.


Estava vindo pra casa, num ônibus lotado. Trazia em meu colo meia dúzia de livros que irão me entreter ainda à noite. Vinha cansado e não pensava em nada específico.
De repente, me acordou uma vontade imensa de escrever. Trazer as palavras que adormeciam já há algum tempo e despejá-las numa folha em branco. Sede e fome servem como boas metáforas para minha ânsia de dialogar com o lápis. Resolvi escrever.
O passo dado, porém, não representa a direção escolhida. Me chamei inspiração. Busquei em algo, em alguma lembrança talvez, motivo e alimento pra minha redação. Desisti de procurar. O barulho das pessoas, as risadas, a força empregada pelo veículo na subida da ladeira dispersava completamente meu raciocínio. Fui olhar a paisagem na janela suja do ônibus. Era linda. Era estranhamente linda, pois passava por ali todas as tardes e nunca me dera o prazer de admirar a minha volta. Por favor, não penses que estou retratando aqui nenhuma vista do mar ou uma serra rasgada de cachoeira ou qualquer dessas cenas que a natureza se encarrega de mistificar com sua vaidade. Não, estou falando do caminho da minha casa. Cheia de ruas sujas e gente pobre. Mas e a lindeza? Está justamente aí. Minhas ruas hoje não eram as mesmas. Traziam um encanto novo. Novos caminhos se abriram em minha passagem. Novas gentes. Vi três guris correndo atrás de uma bola num campinho de areia sujo de grama. Vi entre eles também um sorriso que me alegrou. Estavam descalços. Podiam ficar doente com a friagem – não me lembro de ter dito, mas está pra chover e no momento esfriava. Vi de relance, o ônibus fez a curva. Continuei admirando as imagens que se mostravam tão perfeitas e tão poéticas pela pura singularidade de existir. Uma dona de casa estendendo a roupa no varal, uma moto entrando em uma rua e, após descobrir que estava enganada, fazendo a volta de maneira infratora. Me lembro ter visto um senhorzinho já careca com pequenas manchas grisalhas arriscar a serenidade da velhice em cima de uma bicicleta. E de ter visto também um cachorro doente. Como nunca pude ter visto estas coisas antes?
Em determinado ângulo, o sol, que estava timidamente abraçado por nuvens deixou vazar aos meus olhos uma claridade vitalícia. Me incendiou sua presença. E me mostrou o mundo, esse grande mistério revelado que por tanto tempo relutei de ver. Voltei minha atenção pra dentro do ônibus.
Nunca julgues alguém que por cansaço ou por ocupações ou por preferência mesmo prefere viver dentro de si. As pessoas se entregam facilmente às outras. Nunca fui um parceiro de convivência ou conveniência. Antes fosse. Mas meus hábitos pequenos e fechados me trancaram na redoma de minha face. E agora dentro desse universo micro e apertado pude notar como as pessoas fazem parte uma das outras. Misturam-se para formar a essência do prazer coletivo. Da pluralidade geral. E se tornam um.
Mas ainda há algo de errado. Meu descuido foi a pressa da observação. Não há uma unidade homogênea, não. Há algo mais. Algo mais invisível nessa situação que separa as pessoas. Elas não se conhecem, não são um. Nem querem ser. São vários uns espalhados com seus problemas e suas perturbações. Estão todos presos em suas vidas assim como um condenado à masmorra. Assim como o mar está preso em si mesmo. Assim como eu estava, como eu estou. Somos todos eu. São todos como mim. Ansiamos pela liberdade de forma completa mas nos prendemos em grades de prepotência e preconceito. Estamos muito preocupados com nossa face que nos esquecemos do que ela representa. Maquiamo-nos. Para que assim os outros possam nos ver, nos notar, nos avaliar e nos esclarecer.  Nos medimos, nos trancamos e morremos sós.
Voltei minha concentração para a janela. A escuridão, que já despedia o sol, contra-atacada pela claridade da lâmpada fluorescente do interior do ônibus refletia-me no vidro. Esquivei-me, preferi não me encarar. E como não podia ver a imagem, fui ver o instrumento. Procurei as sujeiras do vidro da janela para me enganar. Mas eles foram além e conseguiram arrastar minhas últimas palavras em um apólogo que escutara na infância e me reapareceu assim. Minha avó que me contou. Falava, em termos resumidos para não alongar ainda mais minha narrativa, de uma senhora que vivia reclamando o encardido dos lençóis estendidos de uma moça recém-casada que tornara sua vizinha. A senhora, porém, ao ver os lençóis estendidos pela janela de sua casa, não notava que a sujeira amarela que via nos panos não era culpa da má-lavagem da jovem, mas da falta de limpeza do vidro da janela de sua casa. Gostava muito das histórias de minha avó, embora a infância não nos permita entender as ironias escondidas por trás dos atos e das pessoas. Ainda bem. Hoje tudo faz sentido.
O ônibus parou no meu ponto. Desci e fui pra casa apressado antes que chovesse, escondido debaixo de mim.

Rivaldo Júnior