sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ponto Cego (Cícero)





Quando
De vez em quando
Talvez um tanto
Faz tanto fez
Passando a vez
De par em par
Le petit prince égoïst
E sua flor de uísque
Em seu planeta sem cor
Mas quem se importa?


Somos
A vez dos zonzos
Talvez enquanto
Quisermos ser
Daqui pra já
Eu e você
Daqui pra lá
Não vai sobrar
Nada pra ser
Mas quem se importa?


É sexta-feira, amor! Sexta-feira!


Tanto

Faz qualquer canto
Pra qualquer santo
Que saiba ler
Que queira dar
Sem receber
Que esteja a par
Do que vai ver
De onde vai dar
Mas quem se importa?
É sexta-feira, amor!
Tem quem queira!


Giramundocão 
Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão   Giramundocão  

quinta-feira, 26 de abril de 2012

dentro do meu violão, ainda está o bilhete que você me mandou


às seis, sem ana passei a semana sem paz.
a face se assanha, se faz-se de manha fugaz.

não queria ler quintana
quinta-feira, fim de semana.
sim, por favor. obrigado.

se o céu fosse desse tamanho eu caberia dentro dele duas vezes.
se não, não.

Rivaldo Júnior 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Adiamento (Álvaro de Campos)

                    



Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

são sete horas e dadaísmo, senhor.




                       eu,  

                                                                                       quis, 
                                  assim,                                                                  viver, 
não.


mas,                                                                                                     você, 
porquê, 
                          desfez,                                                           mal-fez,                                   
                                                   sorriu,
                                                                                                     pra mim,
                                                       te dou, 
não vou,                                                                                             poderei,
                                                                            chorar, 
                                                enquanto, 
             entretanto, 

vivi feliz. 

Rivaldo Júnior

quinta-feira, 19 de abril de 2012

propriedade privada




saquem as espadas, soldados!
cruzem as cruzes cruas. as ruas.
- quem vai chorar por eles, se não nós? 
Rivaldo Júnior

segunda-feira, 16 de abril de 2012

procriação






para aquilo que o move, promove.
para aquilo que o veja, proveja.
para aquilo que o teste, proteste.


Rivaldo Júnior

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Teresa (Manuel Bandeira)



A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
 
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
 
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sublime Cruz (Fagundes Varela)



Estrelas
Singelas
Luzeiros
Fagueiros,
Esplêndidos, que o mundo aclarais!
Deserto e mares, - florestas vivazes!
Montanhas audazes que o céu topedais!
Abismos
Profundos!
Cavernas
Externas!
Extensos,
Imensos
Espaços
Azuis!
Altares e tronos,
Humildes e sábios, soberbos e grandes!
Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!
Só ela nos mostra da glória o caminho,
Só ela nos fala das leis de - Jesus!

quarta-feira, 28 de março de 2012

um poema que não precisa, necessariamente, ser vermelho


havia um homem
que vivia sua vida vermelha.
todos os dias, acordava de seu sono vermelho
se levantava de sua cama vermelha
tomava seu banho vermelho
e seu café vermelho.
saía pra seu trabalho vermelho
no seu carro vermelho.
parava no sinal, que por coincidência, também era vermelho.
ligava o som vermelho
e fechava os vidros vermelhos
de seu carro vermelho
pra não ver a cor dos meninos do sinal
vermelho.
comprava um jornal vermelho
lia as notícias vermelhas
e formava sua opinião vermelha acerca delas.
passava o dia vermelho
com pessoas vermelhas.
sorria vermelho,
quando sorria.
gastava seu tempo curto e vermelho
em fazer coisas vermelhas
mesmo que preferisse às amarelas ou às azuis.
mas fazia, porque tudo era vermelho.
chegando a noite vermelha,
chegava à casa vermelha,
com dores de coluna e centavos de salário vermelhos.
deitava a cabeça vermelha
no travesseiro vermelho
e fechava os olhos vermelhos pra deixar tudo escuro
e voltar pro sono vermelho de onde viera.

lá fora,
três tiros.
uma sirene.
dois cheira-colas estirados no chão.
uma só poça de sangue,
a única coisa realmente vermelha nessa história,
mas que permaneceu incolor.

Rivaldo Júnior
  

segunda-feira, 26 de março de 2012

ambos os dois



vida dupla.
duas vias.
viva as duas.
duras vi-as.
vi nas dunas,
duo sem vida,
vira a rua
de tuas vilas.

nas dívidas,
nas dádivas,
nas dúvidas.

nas vidas. 
Rivaldo Júnior
  

sexta-feira, 23 de março de 2012

Felicidade? (O Teatro Mágico)




Felicidade?

Disse o mais tolo: "Felicidade não existe."
O intelectual: "Não no sentido lato."
O empresário: "Desde que haja lucro."
O operário: "Sem emprego, nem pensar!"
O cientista: "Ainda será descoberta."
O místico: "Está escrito nas estrelas."
O político: "Poder"
A igreja: "Sem tristeza? Impossível.... (Amém)"

O poeta riu de todos,
E por alguns minutos...
Foi feliz!

  

segunda-feira, 19 de março de 2012

Taregué (Maria Gadú)


Taregué foi pro mundo com Zaino e pé
Querendo encontrar, colheu.
E girando no sonho se enlaçou
Espasmos de ar e Zeus...
Véus de amores!
Dançou e bebeu com os seus.

Pela dança a origem se fez vir,
A lua ao contrário viu.
Semeando um pouquinho mais de si
O canto ecoou no rio!
Seus valores, janela feliz ao se abrir.

O pranto que cura a dor
Das margens do rio a enchente.
O peso do Zaino nas costas,
Brilho da córnea e dos dentes.
Do sarro, a risada e o cigarro,
Juras à noite de um longe pra sempre...
Usa do pão e do vinho pra ressureição
Do seu corpo pra mente.

Voa taregué, vá longe, vá buscar!
Volte taregué, teu reino a te esperar!

quinta-feira, 15 de março de 2012

xilocotidiano




tudo se encaixa 
no caixote da cabeça.
um feixe.
uma faixa.
uma trouxa.

cuide, maria, vá buscar água!
                 menina moça, não tem tempo pra paixão.

           Rivaldo Júnior

quarta-feira, 14 de março de 2012

faíscas puseram fogo em londres





não me dê cabimento,              
ou despeje logo a gasolina e taque fogo
no meu coração.                  

Rivaldo Júnior

terça-feira, 13 de março de 2012

O Bicho (Manuel Bandeira)







Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem. 










quinta-feira, 8 de março de 2012

Você É Linda (Caetano Veloso)

às mulheres.

Fonte de mel nos olhos de gueixa.
Kabuki, máscara.
Choque entre o azul e o cacho de acácias,
Luz das acácias,
Você é mãe do sol.


A sua coisa é toda tão certa
  - Beleza esperta.
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa e não olha pra trás...


Linda
E sabe viver.
Você me faz feliz!
Esta canção é só pra dizer
E diz;


Você é linda, mais que demais,
Vocé é linda sim.
Onda do mar do amor
Que bateu em mim.


Você é forte, dentes e músculos,
Peitos e lábios.
Você é forte

Letras e músicas
 - Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir!
No Abaeté, areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você...


Mulher das estrelas,
Mina de estrelas,
Diga o que você quer.


Você é linda
E sabe viver...
Você me faz feliz.
Esta canção é só pra dizer
E diz;


Você é linda, mais que demais,
Você é linda sim.
Onda do mar do amor
Que bateu em mim.


Gosto de ver você no seu ritmo
Dona do carnaval.
Gosto de ter, sentir seu estilo
Ir no seu íntimo:
Nunca me faça mal!


Linda, mais que demais,
Você é linda sim.
Onda do mar do amor
Que bateu em mim.


Você é linda
E sabe viver
- Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Mizaru Kikazaru Iwazaru



as pessoas  cegam e você não ouve.
                surdam e você não fala.
                mudam e você não vê.

Rivaldo Júnior

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Vinte e nove (Legião Urbana)


pela data bissexta.
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos.
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes...

Estou aprendendo a viver sem você,
(Já que você não me quer mais)

Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno,
Decidi começar a viver....



Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.

(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Memória (Carlos Drummond de Andrade)



Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.


Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

sou neto de um joão cabral



                             nordestina rima com clandestina,
                             deve ser pela vida.
                             e também com severina.                                 


            Rivaldo Júnior

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

em tentação



                                                              que seja feita a nossa vontade
                                                                         assim na terra,
                                                              como no inferno.


            Rivaldo Júnior

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

um feliz mente


              quem me disse. disse.
              disseram.

              disseram-me que pra ser normal é preciso ser feliz,
              ou alguma coisa parecida.
              que merda.

              sou feliz mas acho que não sou normal.

 Rivaldo Júnior

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

pelas angústias que fazem a vida como ela é

passo noites, paraíso.
inferno.
foi um tanto complicado, passos, pessoas, noites.
dê-me um conhaque.


origem russa... a vodca, os soviéticos.
danem-se os ultrarromânticos!
tenho o álcool. tenho.
esses meses...
os poucos conhecidos fazem a gentileza
ao relógio.
meia-noites e mulheres, 
meu corpo arde em noites.
as amigas, elas, sim, elas.
meu corpo arde.
as amigas, os prazeres, sim.
arde em noites - meu esperma quente.
noites quentes.
meu conhaque acaba.


minhas noites.
meu pacto com Almodóvar.
gozos deles e delas. elas
elos.
tesouros cônscios, amarelos.
sexo va, sexo viene.
elas.


resta-me álcool na garganta.
despejo o pigarro , já é tarde.
já é hora.
Rivaldo Júnior

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ave de Prata (Zé Ramalho)




É muito mais do que muito,
Muito mais do que quantos anos todos piorei!


É muito mais do que mata,
Muito mais do que morrem todos pela planta do pé!


É muito mais do que fera,
Mais do que bicho, quando quer procriar!


Uma espécie, sementes da água, mistérios da luz...


É muito mais do que antes,
Mais do que vinte anos multiplicar!


Dividir a mentira,
Entre cabelos, olhos e furacões!


Inventar objetos,
Pela esfinge quando era mulher!


Ave de prata, veneno de fogo, vaga-lume do mar...


O mar que se acaba na areia,
Gemidos da terra apoiados no chão.
Entre todos que usam os dentes do arpão!
Apoiados em cada parede pela mão
Pela mão, que criou tantas trevas e luz...


E cada coisa perdida,
Perdidamente pode se apaixonar!


Pela última vida,
Poucos amigos hão de te procurar!


Como é o silêncio?


E nesse momento, tudo deve calar
numa história que venha do povo...
O juízo final .



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

poeta sem sentido sem poema (poema sem sentido sem poeta)



cada vez que vem e vai
vai-se mais de cada vez.

tantas vezes sou espanto, 
outras vezes sou nem tanto.

sou o que não sou
não o que fui
mas o que devo.
faço o que não faço
não vivo, apenas escrevo.

Rivaldo Júnior

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Codinome Beija-Flor (Cazuza)


Pra que mentir,
Fingir que perdoou...
Tentar ficar amigos sem rancor.
A emoção acabou,
Que coincidência é o amor,
A nossa música nunca mais tocou.

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções...
Desperdiçando o meu mel.
Devagarzinho, flor em flor,
Entre os meus inimigos, Beija-flor!

Eu protegi o teu nome por amor,
Em um codinome, Beija-flor,
Não responda nunca, meu amor,
Pra qualquer um na rua, Beija-flor!
Que só eu que podia, dentro da tua orelha fria,
Dizer segredos de liquidificador.

Você sonhava acordada,
Um jeito de não sentir dor.
Prendia o choro e aguava o bom do amor.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O torcedor (Carlos Drummond de Andrade)


No jogo de decisão do campeonato, Eváglio torceu pelo Atlético Mineiro, não porque fosse atleticano ou mineiro, mas porque receava o carnaval nas ruas se o Flamengo vencesse. Visitava um amigo em bairro distante, nenhum dos dois tem carro, e ele previa que a volta seria problema.
O Flamengo triunfou, e Eváglio deixou de ser atleticano para detestar todos os clubes de futebol, que perturbam a vida urbana com suas vitórias. Saindo em busca de táxi inexistente, acabou se metendo num ônibus em que não cabia mais ninguém, e havia duas bandeiras rubro-negras para cada passageiro. E não eram bandeiras pequenas nem torcedores exaustos: estes pareciam terem guardado a capacidade de grito para depois da vitória.
Eváglio sentiu-se dentro do Maracanã, até mesmo dentro da bola chutada por 44 pés. A bola era ele, embora ninguém reparasse naquela esfera humana que ansiava por tornar a ser gente a caminho de casa.
Lembrando-se de que torcera pelo vencido, teve medo, para não dizer terror. Se lessem em seu íntimo o segredo, estava perdido. Mas todos cantavam, sambavam com alegria tão pura que ele próprio começou a sentir um pouco de flamengo dentro de si. Era o canto? Eram braços e pernas falando além da boca? A emanação de entusiasmo o contagiava e transformava. Marcou com a cabeça o acompanhamento da música. Abriu os lábios, simulando cantar. Cantou. Ao dar fé de si, disputava à morena frenética a posse de uma bandeira. Queria enrolar-se no pano para exteriorizar o ser partidário que pulava em suas entranhas. A moça, em vez de ceder o troféu, abraçou-se com Eváglio e beijou-o na boca. Estava batizado, crismado e ungido: uma vez Flamengo, sempre Flamengo.
O pessoal desceu na Gávea, empurrando Eváglio para descer também e continuar a festa, mas Eváglio mora em Ipanema, e já com o pé no estribo se lembrou. Loucura continuar flamengo a noite inteira à base de chope, caipirinha, batucada e o mais. Segurou firme na porta, gritou: "Eu volto, gente! Vou só trocar de roupa" e, não se sabe como, chegou intacto ao lar, já sem compromisso clubista.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ponteio (Edu Lobo)



Era um, era dois, era cem.
Era o mundo chegando e ninguém que soubesse que eu sou violeiro,
Que me desse o amor ou dinheiro...
Era um, era dois, era cem.
Vieram pra me perguntar:
"Ô voce, de onde vai, de onde vem?
Diga logo o que tem pra contar"

Parado no meio do mundo,
Senti chegar meu momento:
Olhei pro mundo e nem via,
Nem sombra, nem sol, nem vento...

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar...

Era um dia, era claro, quase meio.
Era um canto falado, sem ponteio.
Violência, viola, violeiro,
Era morte redor, mundo inteiro...
Era um dia, era claro, quase meio.
Tinha um que jurou me quebrar...
Mas não lembro de dor nem receio: só sabia das ondas do mar.

Jogaram a viola no mundo,
Mas fui lá no fundo buscar!
Se eu tomo a viola: Ponteio!
Meu canto não posso parar, não.

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar, ponteio!

Era um, era dois, era cem.
Era um dia, era claro, quase meio.
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio.
Certo dia que sei por inteiro.
Eu espero não vá demorar, esse dia estou certo que vem.
Digo logo o que vim pra buscar...


Correndo no meio do mundo,
Não deixo a viola de lado.
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar...

Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar...

Ponteio!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

parto pós-maturo



no dia em que me disseram
que poema não precisa de forma,
que poema não precisa de rima,
deus sorriu
carlos, gauchismo.

desde então
não mais vi, não já ajo
só viajo.

ainda bem.

Rivaldo Júnior

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Crime Passional (Filipe Catto)


Tem samba no meu quarto a noite inteira,
Especialmente quando tu te vais...
Tem dança quando diz que não me chegas
Que é para distrair o que me faz sofrer aqui demais.

Na madrugada tem perfume e vela
Pra atrair alguém que vem e traz...
Alguma coisa que em ti me falta
Uma atenção singela pra deixar a noite em paz.

Se for pra me ferir com teu silêncio,
Respondo teu vazio com a paixão,
Pra outros corpos que me satisfazem
Já que essa rua te acalanta muito mais que o meu colchão...

Enquanto te convence para os outros,
Enquanto te bajulam pelo bar,
Não vê, nem por milagre, que tua casa
Pega fogo, espalha, luxuriosa, regozija...

Até que um belo dia me culpaste!
Disseste que assim não pode mais.
Eu ri e disse: "vai, pode cantar vitória agora"
Eu fiz mesmo! E faria, é, de novo, se tivesse... 

mas...

Três tiros irromperam a noite surda
Pr´um corpo de calor que se extinguiu
Me deu três beijos úmidos de lágrima
Selou meus olhos como um arrepio

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Galope na beira do mar (Manoel Xudú)















O mar 
se orgulha por ser vigoroso
Forte e gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move se agita
Parece um dragão feroz e raivoso
É verde, azulado, sereno, espumoso
Se espalha na terra, quer subir pra o ar
Se sacode todo querendo voar
Retumba, ribomba, peneira e balança
Não sangra, não seca, não para e nem cansa
São esses os fenômenos da beira do mar.

O próprio coqueiro se sente orgulhoso
Porque nasce e cresce na beira da praia
No tronco a areia da cor de cambraia
Seu caule enrugado, nervudo e fibroso
Se o vento não sopra é silencioso
Nem sequer a fronde se ver balançar
Porém se o vento com força soprar
A fronde estremece perde toda calma
As folhas se agitam, tremem e batem palma
Pedindo silêncio na beira do mar

Não há tempestades e nem furacões
Chuvadas de pedras num bosque esquisito
Quedas coriscos ou aerólito
Tiros de granadas de obuses canhões
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo serra a desabar
Nuvens mareantes, tremores de terra
Estrondo de bombas, rumores de guerra
Que imite a zoada das águas do mar. 


domingo, 8 de janeiro de 2012

Bicho de Sete Cabeças (Geraldo Azevedo)


Não dá pé,

        não tem pé nem cabeça...
Não tem ninguém que mereça,
                        Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo!
                                        Não tem dó no peito
              Não tem nem talvez ter feito o que você me fez
Desapareça!

    Cresça e desapareça!

Não tem dó no peito,
                Não tem jeito,
                       Não tem coração que esqueça!
Não tem ninguém que mereça,
                                         Não tem pé não tem cabeça
             Não dá pé não é direito,
Não foi nada,                        eu não fiz nada disso
                            E você fez um bicho de sete cabeças,

 Bicho de sete cabeças...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

já está tarde pra se falar dessas coisas




sou do tamanho do quadrado elevado ao meu medo.
não caibo em palavras tolas
não me caibo em mais segredos.

faço-me de preces vagas,
tua voz não mais me sente.
sinto que nunca faria as coisas que faço
e faço.

de repente um sorriso falso
te leva e me arranca de mim.
só me resta o nada.
mas nada mais me acalenta agora.

Rivaldo Júnior

sábado, 31 de dezembro de 2011

Desejos (Carlos Drummond de Andrade)













Desejo a você:
                                       Fruto do mato
                                                                                        Cheiro de jardim
              Namoro no portão
                                                         Domingo sem chuva
          Segunda sem mau humor
                                                                                               Sábado com seu amor
                                             Filme do Carlitos
  Chope com amigos
                                                                     Crônica de Rubem Braga
                 Viver sem inimigos
                                                                                                  Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
                                                              E que ela goste de você
                    Música de Tom com letra de Chico
                                                                           Frango caipira em pensão do interior
         Ouvir uma palavra amável
                                                               Ter uma surpresa agradável
               Ver a Banda passar
                                      Noite de lua Cheia
                                                                                        Rever uma velha amizade
     Ter fé em Deus
                                   Não Ter que ouvir a palavra não
                                                                               Nem nunca, nem jamais e adeus.
         Rir como criança
                                               Ouvir canto de passarinho
      Sarar de resfriado
                                                                                    Escrever um poema de Amor
                            Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
                                                          Tomar banho de cachoeira
           Pegar um bronzeado legal
                                                                                      Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
                                           Queijo com goiabada
                     Pôr-do-Sol na roça
                                                                                                   Uma festa
                                                                                 Um violão
                                                            Uma seresta
Recordar um amor antigo
                                                                         Ter um ombro sempre amigo
                                Bater palmas de alegria
                                                                                    Uma tarde amena
       Calçar um velho chinelo
                                                                         Sentar numa velha poltrona
  Tocar violão para alguém
                                            Ouvir a chuva no telhado
                                                                                                    Vinho branco
Bolero de Ravel 

                                                                                                   E muito carinho meu.