sábado, 26 de fevereiro de 2011

Quando vier a primavera (Alberto Caeiro)

Quando vier a Primavera,   
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
 
 
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.  
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.  
O que for, quando for, é que será o que é.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Síndrome

Ao avesso
Um sentimento
Esquecimento
Que aquece
Queima
Teima
Em bater a porta da frente.

Um barulho
Um zunido perdido no tempo
Em que tempo?
Temporal.
Um trovão
Solidão
Metalinguagem da alma.

Perco-me em mim mesmo
Alguém me viu?
Onde estou?
Não sei.
Quem se importa?

Rivaldo Júnior

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lucky (Jason Mraz)

Do you hear me, I'm talking to you
Across the water across the deep blue ocean
Under the open sky oh my, baby I'm trying

Boy I hear you in my dreams
I feel you whisper across the sea
I keep you with me in my heart
You make it easier when life gets hard

Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
They don't know how long it takes
Waiting for a love like this
Every time we say goodbye
I wish we had one more kiss
I wait for you I promise you, I will

Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Lucky we're in love in every way
Lucky to have stayed where we have stayed
Lucky to be coming home someday


And so I'm sailing through the sea
To an island where we'll meet
You'll hear the music, feel the air
I put a flower in your hair

And though the breeze is through trees
Move so pretty you're all I see
As the world keep spinning round
You hold me right here right now


Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Lucky we're in love in every way
Lucky to have stayed where we have stayed
Lucky to be coming home someday

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Epifania Íntima

A ordem semicondutora de tudo se altera. 
O pólo sim,
O pólo não.
A desordem dos fatores
Dos meios comuns a qualquer homem
E o produto inalterado.
Miscigenado.
Metamorfoseado.
Desfigurado pelo tempo,
Pelos grãos que caem da ampulheta
Maldita transformação
E maldita atração dos opostos
Bendita transformação.
É ela que nos leva ao delta da vida:
A fase final menos a inicial.
Uma fase nova.
Trezentas e sessenta e cinco fases novas
Ou uma fase crescente
Ou minguante
Ou cheia,
Ou fase vazia.


Rivaldo Júnior

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os três mal-amados (João Cabral de Melo Neto)

                                             O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
       O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus.
                              O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
 O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
                   O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
        Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
                                           O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
     O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
                     O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
                            O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
  O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
                                             O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O eco (Guilherme de Almeida)

"Perguntei à minha vida:
Como achar a apetecida
felicidade absoluta?
E um eco me disse:
                                    - Luta!

Lutei. 
Como hei de a esta pena
dar cadência serena
 que suaviza, embala e encanta?
O eco, então, me disse: 
                                  -Canta!

Cantei.
Mas, como, num verso,
resumir todo o universo
que em mim vibra, esplende e clama?
Então o eco me disse:
                                    - Ama

Amei. 
Como achar agora
a alma simples que eu pus fora
pelo prazer de buscá-la?
O eco, então, me disse:
                                   - Cala!

Calei-me. 
E ele, então, calou-se.
Nunca a vida foi tão doce...
Tudo é mais lindo a meu lado:
Mais lindo, porque calado." 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Jogo de Cartas


Quando menos se espera
uma carta sai da manga
um novo ás 
uma nova esperança
porque esperar não é querer muito
é fazer acontecer
e ser o que se é,
e o mundo vai continuar girando
sempre.  
  Rivaldo Júnior

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Esperar não é saber


         Embora a concepção sociológica afirme que o homem é produto do meio em que vive, cabe ao ser social a forma como ele interagir-se-á com a realidade da qual faz parte. E é nessa sociedade, cada vez mais plural e dinâmica, que o indivíduo constrói a base das suas decisões. Portanto, os diferentes ângulos de observação dos fatos e posições refletem a multiplicidade de opiniões e atos que formam o caleidoscópio social que nos abriga.
         A comunidade humana, cada vez mais heterogênea, é fruto de decisões importantes e momentos essenciais. Essas situações, nem sempre favoráveis à posição da maioria, foram fundamentais no processo de construção do mundo atual e suas interpretações dependem do modo como são encaradas. De forma natural, o homem começa a perceber que existem maneiras diferentes de observar as ocasiões e a partir do momento que ele aplica esse pensamento no seu dia-a-dia, surge-se as primeiras ideias e manifestações que lapidaram a história da humanidade.
         A realidade atual, por sua vez, apresenta características geradas pelo processo de modernização das civilizações. A desigualdade socioeconômica, a exploração demasiadamente irresponsável dos recursos naturais e a subordinação intelectual da massa em frente a governos manipuladores, por exemplo, cegam qualquer ótica positiva sobre esses aspectos. Porém, a imprudência não justifica a complacência. É necessário por em prática o ponto de vista crítico e agir de forma determinante, de modo que as irregularidades possam ser revertidas e a mudança maior seja a crença na realização de um futuro melhor. 
         É vã a esperança em um futuro melhor, se pouco for feito para mudar o presente. A vontade e a harmonia do homem e das coisas visualizando o amanhã serão as engrenagens da transformação do homem e do planeta. Todavia, esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.


Rivaldo Júnior

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Os oím do meu amor



 
Ê nunca mais eu vi 
Os oím do meu amor 
Nunca mais eu vi 
Os oím dela brilhar 
Nunca mais eu vi 
Os oím do meu amor 
São dois jarrinho de flor 
E todo mundo quer cheirar

domingo, 23 de janeiro de 2011

Dona Cila (Maria Gadú)

De todo o amor que eu tenho
Metade foi tu que me deu
Salvando minh'alma da vida
Sorrindo e fazendo o meu eu.


Se queres partir ir embora
Me olha da onde estiver
Que eu vou te mostrar que eu to pronta
Me colha madura do pé.


Salve, salve essa nega
Que axé ela tem
Te carrego no colo e te dou minha mão
Minha vida depende só do teu encanto
Cila pode ir tranquila
 
Teu rebanho tá pronto.


Teu olho que brilha e não para
Tuas mãos de fazer tudo e até
A vida que chamo de minha
Neguinha, te encontro na fé

Me mostre um caminho agora
Um jeito de estar sem você
O apego não quer ir embora
Diaxo, ele tem que querer

Ó meu pai do céu, limpe tudo aí
Vai chegar a rainha
Precisando dormir
Quando ela chegar
Tu me faça um favor
Dê um banto a ela, 
que ela me benze aonde eu for

O fardo pesado que levas
Deságua na força que tens
Teu lar é no reino divino
Limpinho cheirando alecrim

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Talvez




Três lágrimas
Um sorriso amarelo
uma promessa -
Talvez amanhã...

ou não.



Rivaldo Júnior

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Mucuripe (Fagner)

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vão levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar
Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo inda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz moço encantado
Com vinte anos de amor
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Bicarbonato de soda (Álvaro de Campos)

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...
Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens, Sem esperança, em liberdade, sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros! Dêem-me de beber, que não tenho sede!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Saudades póstumas


         No centro de tudo eu. E o que é tudo? Os meus olhos não conseguem ver nada. O Chão é claro, branco. O Teto, não muito alto, é tão alvo quanto o solo. As Paredes de tão longes parecem inatingíveis. E no centro de tudo eu. Uma angústia começa a afligir-me. Meus olhos ardem. Não conseguem distinguir Chão, Parede e Teto desse enorme salão branco. Cima e embaixo.
         De repente grandes objetos metálicos se aproximam com uma velocidade indelicada. São enormes esferas de chumbo. Elas giram em um balé desordenado, imitando as órbitas elípticas dos planetas. E eu no centro como o Sol. Em um movimento de aceleração constante elas se emparelham e rodam ao meu torno. E, de forma espiral, se aproximam de mim. Tenho medo, mas estou aqui. E daqui não posso fugir. Tenho que agüentar, sê forte. Grito. As esferas param. E de dentro delas sai um barulho ensurdecedor. Um ruído que me incomoda. Que me enlouquece. Me desorienta. Grito. Elas se afastam. Calam-se. Param.
         Começo a correr nesse espaço inexplorável. Quanto mais eu corro, mais perdido fico em meio ao nada. Tento encontrar as Paredes mas começo a perceber que elas não existem. Caio e deito no chão. Um líquido arroxeado, viscoso e grosso começa a brotar do Teto. Infiltra e cai em gotas rápidas. Em todas as partes, essa substância escorre e se acumula no Chão. Curioso, toco nesse material. Uma sensação terrível passa por mim. Uma queimadura. Um choque elétrico. Um calafrio. Afasto-me. Porém o líquido começa a se acumular, e a avançar sobre mim. Não tenho para onde correr. O nível me alcança e vai lentamente tomando meu corpo. Dói. Fere. Começo a chorar. Inutilmente. Quanto mais me debato, mais torturado eu sou. Sofro. O nível, e sua sensação medonha, alcançam meu pescoço. Olho angustiado pro Teto. Não sinto meu corpo. O líquido lentamente vai tomando minha boca. Meu olhar firme treme por alguns segundos. Afogo-me.
         O cheiro das velas e das flores incomoda meu nariz. Com as costas das mãos, enxugo meu rosto inchado. Derramo minha última lágrima. Minha vida acabou. Naquele caixão jaz toda a minha vida, o meu amor. No meu coração resta apenas um vazio imenso, cheio de saudade.

Rivaldo Júnior

O abacateiro


Ontem,
Atrás da minha casa havia um grande abacateiro
Sua sombra cobria todo o quarteirão
Ele era meu melhor amigo.

À tarde,
Corríamos juntos pelo quintal empoeirado,
Brincávamos. 
Eu subia nas suas costas
E pedia que me contasse uma história 
As aventuras de Ali Babá e seus ladrões...
Ele me amava
E eu era a criança mais feliz do mundo.

Hoje,                                
Ergueram um grande prédio onde ficava minha casa.     
Uma multinacional com mais de mil andares
Progresso do país  
Sua sombra nem sequer atravessa a rua.
Rivaldo Júnior

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ne Me Quitte Pas (Jacques Brel)

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheure


Moi je t'offrirai
Des perles et des pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine


Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racontrai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer


On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas


Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
 

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

domingo, 2 de janeiro de 2011

O palco da vida


      A busca do sentido da vida sempre assombrou a consciência humana. As respostas para perguntas simples com: “Porque tudo isso?” e “Para quê?”, jamais foram encontradas. Séculos se passaram e gerações se sucederam sem que houvesse a menor certeza de o que aconteceria amanhã. Do pó viestes, ao pó voltarás. As marcas deixadas por nossos atos são as únicas heranças que sobram para o mundo que nos gerou. 
      Talvez o tempo, essa força que nos envelhece e mata, ou as ocupações, cada vez mais corriqueiras de uma sobrevida apressada, têm tornado o modo de vida mais fútil e desvalorizado. Sorrimos menos, vivemos menos. Estamos sempre apressados em meio a uma avalanche tecnológica. Somos cada vez mais cobrados e classificados. Devemos obedecer o rigoroso sistema que nos aprisiona. Caso o contrário, somos jogados à margem, excluídos da sociedade. Como marionetes, somos presos por nós mesmos na nossa trivial luta cotidiana.
      O dramaturgo inglês Charles Chaplin comparava a vida a uma peça de teatro que poderia, ou não, terminar em aplausos. A escolha caberia, portanto, a cada um de nós. Lançados como sementes na Terra, somos único e exclusivamente responsáveis pelos frutos que geraremos amanhã. E assim, pois, se constrói a sociedade contemporânea. A nossa realidade é consequência da atuação de todos os seres no palco terrestre. E a vida, essa aventura improvisada, é o enredo que escrevemos a cada dia de acordo com as ocasiões e as escolhas que seguimos em meio ao conjunto social.
      Uma famosa música diz: “Viver é não ter a vergonha de ser feliz...”, porém é mais que isso; é optar pela felicidade e aproveitar ao máximo cada momento, antes que as cortinas se fechem e o espetáculo termine sem aplausos. 

Rivaldo Júnior

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


E, de um dia pro outro, como se fosse mágica, distâncias encurtam, dilemas se resolvem, destinos se reescrevem. Desejos e realidade ficam de mãos dadas. Como mudar ou se mudar? Como se realizar? Como vencer? Como crescer? Como explicar que o impossível se tornou possível de ontem pra hoje? Surpreender. Se desprender. Ser o que se é. E ir além. Para onde quiser. Planeje. Calcule. Faça e refaça as contas. Faça de conta. Conte até dez. Até onze. Até dois mil e onze. Não desista. Resista. Insista. Persista. Lute até o final. Até o final feliz. Já começou uma nova década. Uma nova dezena de anos. Duas mãos abertas. E você está esperando o quê? Comece. Ou recomece. Erre. Erre. Erre. Erre até acertar. Acerte. Estude. Leia mais. Escreva mais. Desenhe mais. Invente. Se reinvente. Tente o que nunca tentou. Tente o que sempre tentou mas nunca conseguiu. Siga em frente. Seja diferente e ainda seja você mesmo. Recicle e se recicle. Se @tualize. Se comunique. Com ou sem palavras. Com cem palavras. Ou com apenas 140 caracteres. Como ser moderno e tradicional? Coisas que o tempo não leva. Coisas que só o tempo traz. A boa e velha experiência. E novas experiências. Faça o que você nunca imaginou. E faça aquilo que só você sabe fazer. Corra atrás. Corra na frente. Não espere. Espera não é esperança. No jogo de palavras da vida esperança é a primeira. E a última a morrer.  Só que ela não morre. Ela renasce quando nós renascemos. Renasça. Faça de sua vida um livro que seus filhos possam ler e ter orgulho do autor. Feliz 2011!

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Sinal Ficou Verde

Eu
Entrei com armas em teu território
Plantei antenas no teu coração
Andei pesado na tua sala
Tal como árvore ou como torre
E abrindo a boca ela devorou
E abrindo os braços fez a dor passar
Primeiro os pássaros
Primeiro a roda
E o pensamento de querer voar

Mas
Deixando marcas
Fazendo som
Aqui se planta pra colher depois
E os mercadores vão pagar pra ver
E aquela onda vai querer passar
É quando mudar a cor da nossa casa
É quando voam os automóveis
Pra outro canto
Um ponto novo
Com tudo aquilo que se refaz

Além do bem
Além do mal
Olhai o sinal ficou verde

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Poema tirado de um trabalho da 3ª Série

Na Terra,
Antigamente existia muitos dinossauros.
Eles eram grandes e fortes e bravos.
Muitos eram carnívoros, e comiam carne.
Uns eram herbívoros.
Eles dominavam a Terra e tudo que nela existia.
Por que eram grandes e fortes e bravos.

Um dia veio um meteoro,
                          e matou todos eles.

Rivaldo Júnior 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quincas Borba, Capítulo VI (Machado de Assis)

Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e  ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. 
- Mas a opinião do exterminado?
- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

Autopsicografia (Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
 
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A evolução do ser Terra


“Sou um homem dissolvido na natureza. Estou florescendo em todos os ipês.” 
(Carlos Drummond de Andrade) 
          Somos incontáveis seres vivos habitantes de uma mesma nave. Perdida no espaço, a Terra representa o maior complexo biótico conhecido. Enquanto isso, nós, seres humanos, representamos a classe mais alta na escala evolutiva. Porém, esse desenvolvimento, como nunca na história da humanidade, está afetando o ciclo contínuo de perpetuação do planeta. É preciso mudanças rápidas e definitivas para garantir a nossa amistosa relação com o mundo em que vivemos.
          Desde infância nos sentimos ligados a um sentimento de universal de cidadão do mundo. Com as novas tecnologias podemos dizer que hoje participamos, de fato, de uma aldeia global. Um grupo constituído não só de seres humanos, mas de todos os organismos vivos, inclusive, o próprio planeta; formando a mais forte relação extraespecífica do universo. Segundo Moacir Gadotti, o âmago de nossas vidas consiste no sentido de identidade com o nosso planeta. Todavia, a forma de desenvolvimento neoliberal-capitalista, formada à base do consumismo desenfreado, acarreta ao planeta uma verdadeira crise produtivo-ambiental.
          Conforme diz a Carta da Terra, documentado apresentado nas Organizações das Nações Unidas no início desse século, a ordem desses novos tempos deve ser relacionar o desenvolvimento humano e econômico à preservação das riquezas naturais, ou seja, desenvolvimento sustentável. Entretanto, a revolução sustentável proposta não se restringe apenas ao campo biológico, mas engloba todos os ramos da sociedade, difundindo-se, inclusive, nas áreas sociais e econômicas, visando o completo progresso humano. Assim, a globalização competitiva tanto quanto a visão capitalista antiecológica são verdadeiras armadilhas no processo biossustentável, já que estão formadas a partir da exploração do homem e do meio. Por sua vez, um capitalismo voltado ao cooperativismo e à evolução do homem, ser e espécie, é a base para as revoluções sustentáveis de todos os níveis da sociedade.
          Esse momento, único e indispensável, foi sonho de muitas gerações e deve ser nossa herança para o futuro. É preciso sonhar, mas com a condição de crer e realizar, escrupulosamente, a nossa fantasia. A teia da vida deverá ser tecida ao longo da história das populações, de modo que se consiga a paz e a harmonia homem-planeta. Lutar por nossos ideais e levar a causa sociossustentável é dever de todo filho de Gaia, a Mãe-Terra. Nosso futuro é o mundo. Nosso endereço é o planeta. Nossa história, nossos sonhos são a Terra.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Testamento de um 3º

         É, eis que chega o fim. Acabou. Cada um de nós, agora, somos donos dos nossos narizes. Cada um de nós, de agora em diante, somos responsáveis por nossas escolhas e nossos atos. O ensaio terminou, a vida nos espera. Agora é o momento de mostrar-nos quem somos e o que realmente queremos para a nossa vida. Por isso, não, não é o fim. Não é o término, mas sim, o início de um novo momento, de uma nova etapa. Um novo passo a ser dado. O ensino médio passou como uma chuva de verão, quente e suave. Este ano então, podemos dizer, sem medo do futuro, que foi o melhor ano de nossas vidas. Também só podia ter sido. Vivemos com pessoas que fizeram parte e sempre estarão conosco em nossa caminhada. Criamos laços. Vivemos momentos inesquecíveis, histórias que ficarão pra sempre em nossa memória. Festas, desde forrós no sítio até aniversário de um professor único. Criamos uma relação que nada, nem o tempo ou o espaço, poderá apagar. Vencemos. Chegamos ao topo de nossa vida escolar. E tudo isso de uma forma tão natural, tão simples, tão bela. Construímos neste ano, seja no calor humano de nossa turma ou no friozinho bom danado da sala de vídeo, histórias de uma história que rompe as barreiras da separação. Por que o eterno sempre dura. Dura pra sempre. E se lembra quando a gente chegou um dia acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o pra sempre, sempre acaba.  Pois é, acaba. Mas não acaba assim, em meio lagrimas e soluços, não. Nossa turma não é disso; Nossa turma é de festa, de alegria, de revolução.  De fazer luto e abaixoassinado em favor de um ente que partiu desse turno para um, digamos, melhor. E é uma turma também de por medo em professor. Quantos de biologia ja nos ensinaram? Gente, por gentileza; depois de três outros, foi necessaria uma professora firme e forte para nos domar. E falando nesse povo que teima em querer por conhecimento em nossas cabeças, só temos a dizer: Obrigado. Obrigado Viviane por tantos Sentem e façam a tarefa, agora; que se tornam mais um simples detalhe na nossa relação. Obrigado Givanildo por tantos discursos eternos que ninguém sabe ao certo o que quer dizer... E a criança Hélder, valeu por abrir o nosso coração pra Jesus, e por deixar o nosso quadro intacto... Enquanto física, bem passamos essa parte, a amizade é a mesma. Das nossas professoras estrangeiras, Roberta, mais do que qualquer professor conhece essa turma, afinal foram 11 anos em nossa companhia, e Dyrce, só conhece Dyrce quem conhece Dyrce e seu Cerrem sus libros, ahora; Thank you y Gracias. Valeu mestre Adilson, por toda a sua convivência com essa galera. E Alex? Ah, ALEX. Um verdadeiro onívoro cultural, um amigo dos melhores de nossa turma, porque ser amigo é isso Alex, aguentar até a ultima gota de paciência e querer sempre o melhor do outro. Aqui, portanto 42 sinceros obrigados de amigos seus. E quer um conselho de amigo? Seja mais humilde, homem; alias sejamos todos mais humildes em reconhecer que o que somos depende muito de vocês. Voltando a esta turma, e que turma; tão heterogênea e igual. Especial. Em todos os prismas e sentidos. Das gargalhadas de Haline e as viajadas de Heron. Das brincadeiras de Clara, de seu vocabulário tao distinto. Que absurdo; Do caso mal resolvido de José Breno e Ricardo, que não se separam, e de mel, Meu mel. De um representante que vai com seu cabelo de Rodrigo Hilbert a David Beckham. E de uma pessoa que tanto fala na sala... né Carol? E também uma pessoa eu vive em dúvida, chora não Bia. E claro não podemos esquecer um motoboy de um cabelo que faz sucesso por onde passa. E se por acaso um problema lhe atingir, você pode contar com o maravilhoso chá de Maria, cura gripe, dor de cabeça, enjoo, deslocamento de joelho de Caíque e até mesmo desmaios de José Breno.  Contudo, pra quê o cha se nós temos uma enfermeira na sala? Do quarto pra piscina e da piscina pro quarto. E claro um colega nosso eu sempre esta presente: Jonh Nash. É, foram tantos momentos, tantas histórias. Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: "quem são essas pessoas?" Diremos que eram nossos amigos e isso vai doer tanto! Foram meus amigos. São meus amigos. E foi com eles que eu já fiz coisas incríveis. Já abracei pra proteger, já dei risada quando não podia, já fiz amigos eternos, já amei e fui amado, mas também já fui rejeitado, já fui amado e não soube amar. Já gritei e pulei de tanta felicidade, já vivi de amor e fiz juras eternas, mas "quebrei a cara" muitas vezes!Já chorei ouvindo música e vendo fotos, já liguei só pra escutar uma voz, já me apaixonei por um sorriso, já pensei que fosse morrer de tanta saudade e... Tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo)! Mas sobrevivi! E ainda vivo! 
Não passo pela vida...  E você também não deveria passar. Viva!!!
Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve...                                 

 “E A VIDA É MUITO para ser insignificante”.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Cordel Estradeiro (Cordel Do Fogo Encantado)

A bença Manoel Chudu
O meu cordel estradeiro
Vem lhe pedir permissão
Pra se tornar verdadeiro
Pra se tornar mensageiro
Da força do teu trovão
E as asas da tanajura
Fazer voar o sertão

Meu moxotó coroado
De xiquexique facheiro
Onde a cascavel cochila
Na boca do cangaceiro
Eu também sou cangaceiro
E o meu cordel estradeiro
É cascavel poderosa
 
É chuva que cai maneira
Aguando a terra quente
Erguendo um véu de poeira
Deixando a tarde cheirosa
 
É planta que cobre o chão
Na primeira trovoada
A noite que desce fria
Depois da tarde molhada

É seca desesperada
Rasgando o bucho do chão

É inverno e é verão

É canção de lavadeira
Peixeira de Lampião
 
As luzes do vaga-lume
Alpendre de casarão
A cuia do velho cego
Terreiro de amarração
O ramo da rezadeira
O banzo de fim de feira
Janela de caminhão

Vocês que estão no palácio
Venham ouvir meu pobre pinho
Não tem o cheiro do vinho
Das uvas frescas do Lácio
Mas tem a cor de Inácio
Da serra da Catingueira
Um cantador de primeira
Que nunca foi numa escola
 
Pois meu verso é feito a foice
Do cassaco cortar cana
Sendo de cima pra baixo
Tanto corta como espana
Sendo de baixo pra cima
Voa do cabo e se dana.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um poema concreto

M  U   
P  NS  ME  T   
É   
M  IS    
R ´ PI  O  
QU   
AS  
  INH  S 
MA   S.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Falar sem dizer nada


    Somos muito redundantes. Repetimos, obcecados, as mesmas ideias que já formulamos. Na mesma frase acumulamos informações superpostas, congestionando o trânsito verbal. Empilhamos uma em cima da outra (e seria possível empilhar de outra forma?) as palavras dessa torre de Babel. Perdemos tempo (nosso e alheio) empregando demasiado tempo para se dizer que o tempo não se pode perder. Acrescentando ao dito o que, não-dito, melhor seria não dizer.
    Quando eu chovo, chovo no molhado, o que provoca uma enchente de ideias inúteis. O velho ”SUBIR PARA CIMA” e o mais velho ainda “DESCER PARA BAIXO”.
    Um escritor anuncia na entrevista: ”Estou escrevendo a minha autobiografia”. Maior feito literário seria escrever a autobiografia de outra pessoa. O político afirma no discurso: “Não há outra alternativa!” Mau sinal... Por que mencionar essa outra se alternativa significa justamente outra opção? O garçom comunica: “Servimos canja de galinha”. A canja só pode ser de galinha, a menos que falte galinha nessa canja! O médico pontifica: “O terçol nos olhos é um problema corriqueiro.” Então porque não deixar a palestra para o dia em que o terçol atingir outros órgãos?
    A socióloga debate: “O elo de ligação que une essas pessoas...”. O historiador observa: “Os faraós do Egito”. O economista analisa: ”Os preços aumentaram mais”. A professora interpreta: “O principal protagonista do romance”. O senhor da praça pede: “Você pode repetir de novo?”. O agrônomo conclui: ”Foi culpa dos agrotóxicos que adentraram no interior do solo”. O cantor canta: “Detalhes tão pequenos...”. E alguém, cansado de tanta redundância, diz: ”Precisamos encarar de frente esse problema da redundância!”. Bem, se fôssemos encarar de costas seria um baita torcicolo!

sábado, 13 de novembro de 2010

Um poema à dois

À um pedaço de Mel.


Ame, não fale, demonstre.
Viva, o tempo não espera.
Hoje é o melhor dia de sua vida,
Tudo pode ser diferente.
Faça acontecer o novo
Junte tudo o que você tem de bom.
Neste momento, descobrirás
Que a felicidade realmente existi.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Marca d'lágrima

    Há dias já me abateu o desejo de escrever-vos esta pequena passagem. Faltava, porém, disposição e a inspiração necessária para que eu pudesse sentar-me e dedicar ao teclado as letras aqui dispostas. Contudo; minha preguiça foi vencida pela inconstância do meu cérebro em por as vozes do inconsciente pra fora. 
    Um relógio digital piscava no alto de uma parede. Na pressa da multidão meus passos se confluíam no som que as outras pegadas invisíveis deixavam no concreto. O trem já estaria chegando. Enquanto ele não chegara, procurei um lugar a fim de descansar meu corpo. Avistei um assento e fui a sua direção. Sentei. Ao meu lado, o vazio me acompanhava. Quanto invisíveis somos no meio de tanta gente! De repente, uma moça magra de traços sutis sentou apressada ao meu lado. Pôs a mão no rosto e começou a chorar.
    Nesse momento, um grito de desespero invade a minha alma. Por que a moça estaria chorando? Fiquei imóvel. Ela, coitada, gemia em soluços paulatinos. Fungava. Tremia. Chorava. Sua dor me comoveu. Mas uma força, dessas que só aparecem nos momentos mais indesejáveis, calava-me. À toa. Deveria lhe oferecer ajuda? Mas se ela não gostasse? Se achasse uma intromissão, uma falta de respeito, um entrar em assuntos que não me interessavam? Fiquei calado. Por mais que gritasse, ninguém me ouvia.
    A moça parou de chorar. Retirou de sua bolsa um lenço que levou aos olhos, que já estavam secos de lágrimas. Ficou séria, um pouco rubra. Em sua volta dezenas de corpos a olhavam paralisados. Pareciam frias estátuas de madeira. Bonecos de bronze. E eu era um desses. Uma nova lágrima caiu no chão. Dessa vez sem tantos soluços, mas silenciosamente, cortante. Ela voltara a chorar e eu, insignificantemente, permaneci estático. Um barulho se aproximava. Movimento na estação.
    Como a viajem era longa, procurei um assento, de preferência próximo à janela, onde as imagens distraíam-me e diminuiam o trajeto. Porém, do vidro embaçado apenas extraia-se o vulto da jovem que permanecia enxarcando as mãos. Todavia, mesmo com a sua sombra esvaindo-se à medida que a máquina de ferro rachava os trilhos, ficou intacta em minha alma uma marca de uma lágrima.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mais uma vez (Renato Russo)

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

domingo, 17 de outubro de 2010

Poema de Sete Faces (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.


O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Na Sua Estante (Pitty)

Te vejo errando e isso não é pecado,
Exceto quando faz outra pessoa sangrar
Te vejo sonhando e isso dá medo
Perdido num mundo que não dá pra entrar
Você está saindo da minha vida
E parece que vai demorar
Se não souber voltar ao menos mande notícias
Cê acha que eu sou louca
Mas tudo vai se encaixar


Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu



Você tá sempre indo e vindo, tudo bem
Dessa vez eu já vesti minha armadura
E mesmo que nada funcione
Eu estarei de pé, de queixo erguido
Depois você me vê vermelha e acha graça
Mas eu não ficaria bem na sua estante


Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres e outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu



Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam
E essa abstinência uma hora vai passar...

domingo, 10 de outubro de 2010

Tenho medo


Tenho medo de me encontrar.
Tenho medo de me perder.
Tenho medo de me achar.
Tenho medo.

Na vidraça fria, lágrimas escorrem.
O mundo chora.
O frio me renega a vida,
O sangue d’alma escorre dos meus olhos.

Dói
Fere
Mata.

O cobertor já não me faz companhia. 
Rivaldo Júnior